sexta-feira, 13 de abril de 2012

Os Cátaros de Agustín

Quando me encontrei com o Agustín de Rojas*,  algo não estava bem; diziam que estava louco. Perdera o lugar de professor na universidade, sem que realmente se soubesse o que aconteceu. Dizia-se ainda que não sabia mentir, nem ser mau com pessoas ou animais, comia apenas vegetais, em suma louco, apesar de se lhe reconhecer o imenso talento de escritor de ficção cientifica. O Agustín dedicava-se a acompanhar e proteger os mais jovens dos escritores ou poetas, com o mero intuito de ajudar e encorajar. Morreu em 11 de Setembro 2011, vitima de doença não especificada. Não morreu de doença, morreu de tristeza!, alega Jinny Zamora**, antiga protegida dele. Afirmava-se descendente dos Cátaros. Este modesto post é-lhe dedicado.
O apostolo Pedro nunca aceitara de bom grado as constantes atenções de Jesus com a Maria Magdalena, em particular tê-la escolhido para revelações místicas à margem dos apóstolos. O Messias, fora sacrificado na cruz, e para Pedro, nenhuma mulher deverá assumir um papel fundamental na Igreja que se pretende fundar; seria perturbador, e contra todas as tradições judaicas. Pedro e Maria Madalena representam dois universos diametralmente opostos. Maria Madalena transporta no seu ventre a semente de Jesus, é sua responsabilidade, mas sem a ajuda dos apóstolos que se colocaram ao lado de Pedro, encorre em graves riscos se não decidir deixar Jerusalém o mais rapidamente possível.

Acompanhada de alguns familiares e amigos, desembarca no sul da França, onde sem inimigos de nenhum género irá ter o seu filho e viver finalmente em paz. Os descendentes de Jesus, diziam-se simplesmente cristãos, chamavam-se a si próprios bons homens e boas mulheres. A pequena comunidade cresceu em numero e em prosperidade durante séculos sem que a Igreja oficial os incomode. Até mesmo os trovadores, ousados e verdadeiros críticos da nobreza e da sociedade, transportavam alguns dos valores atribuídos a esta comunidade, nomeadamente a cortesia, os bons modos, a apologia da mulher como ser amável e espirituoso.
  
Estamos no século X; o Império Carolíngio acabou de se dissolver, os Bispos são nomeados pelos Condes, e Roma detém pouco poder. Na Ocitania, sul de França, vinte por cento da população segue regras e ensinamentos em total contradição com a Santa  Igreja Apostólica Romana. Pior, não lhe reconhecem autoridade evangélica. Diz-se Cristã, esta população enquanto os seus detractores os nomeiam "Cátaros". Eles próprios nunca se chamam assim pois o termo "Cátaro" significa perfeito. Esta gente não come carne nem qualquer alimento de origem animal, não mentem, nem enganam nunca ninguém; a sua diferença não deixa de inquietar os demais.Todavia um misterioso monge teima em conhecê-los melhor, visita-os com bastante regularidade, debatendo com o Bispo "Cátaro", os mais diversos assuntos científicos e teológicos, estabelecendo-se entre os dois homens uma mutua e profunda estima.

Ao longo das sempre curtas convivências vão se revelando algumas facetas extraordinárias do monge Gerbert d'Aurillac. Admirador da ciência e cultura  árabe, desloca-se á Catalunha onde numerosas obras estão sendo traduzidas do grego e do árabe para latim, permanece três anos no monastério de Vich, onde aproveita para se familiarizar com Aristodes, estudar matemática e astronomia, geometria e musica. Pretende substituir a numeração romana por um novo modelo baseado em numeração decimal, desenha letras árabes para representar cada valor numérico. Até a quantidade nula é agora representada por um símbolo que ele chama "zero".

De regresso á Ocitania  empreende de aprofundar os seus conhecimentos sobre a filosofia e a forma de religião dos Cátaros. Estes advogam a não violência, esforçam-se para manter uma vida exemplar, são vegetarianos. Defendem um dualismo de dois princípios divinos, o Deus da bondade, da luz e dos espíritos, e o outro, Deus do mal, da escuridão, e do mundo material. Para eles o Deus bom é omnipotente na bondade, suas obras são perfeitas, e tudo o que ele não criou não é nada (nihil). Existe desde a eternidade e nunca terá fim. Os anjos, também chamados espíritos, são de natureza divina. No "nihil" encontra-se o principio do maligno, o Deus do mal. Este conseguiu desviar uma parte dos anjos, ora pela força ora pela tentação, introduzido-os em corpos carnais fabricados por Lúcifer, porque o Deus maligno não tem existência se não se misturar à criação Divina. Esta criação carnal, com origem num criador imperfeito, terá um principio e um fim que acontecerá quando a parcela divina do ser humano, o anjo, se extrai do corpo carnal para regressar a Deus. Os animais também são susceptíveis de terem recebido uma alma, pois esta pode ser transmitida por transmigração. Apenas pelo Espírito Santo a alma escapará do mundo físico, com o baptismo por imposição das mãos, e não pelo baptismo da água como na Igreja Romana.

Dez anos passaram desde a última visita do monge, quando uma embaixada  composta por cinco homens se apresenta em nome do Imperador Otão III. Entre eles encontra-se o monge Gerbert d'Aurillac. São recebidos com a cordialidade própria de quem oferece tudo o que tem, na presença do Bispo Cátaro de Montségur.
- Amanhã parto para Roma, informa o Monge, fixando o olhar no seu interlocutor.
- Acabaste de chegar Gerbert. Como vês eles estão bem, amanhã vai se realizar uma cerimonia de
   Consolament, o baptismo de uma pessoa. Gostaria de contar com a tua presença, responde o Bispo com  
   doçura.
- O Consolament, o baptismo pelo fogo e imposição das mãos, murmura o monge quase para ele próprio.
  Os descendentes de Jesus e de Maria Magdalena não receiam enfurecer os detractores, cada vez mais 
   numerosos, segundo ouvi dizer...
- O nosso segredo continua bem guardado meu amigo.  Somos os descendentes de Jesus, mas sem baptismo 
   o Cristo não desce até nós, interrompe o Bispo. O rito do baptismo permite o Cristo nos adumbrar, tal 
   como fez com o seu discípulo Jesus nos últimos três anos da sua vida.
- Bem sei como consideram o Cristo: um espirito puro, não incarnado, enquanto Jesus ser humano,
   adumbrado pelo Cristo, se transformou em Jesus-Cristo.
- E sobretudo permitirá a quem recebeu a graça que o seu espirito se junte ao Pai quando deixar este
  mundo. Permite-me um pedido: que rezes novamente aqui, connosco o Pai Nosso. Amanhã, partes para  
  Roma, mas antes disso, serás confirmado no adumbramento, renovando o baptismo como filho de Jesus.
- Não te disse ainda o que vou fazer a Roma....
- Não importa o que vais fazer Irmão. Farás tudo por bem!

Esta pequena história relata como Gerberd d'Aurillac, sob o nome de Silvestre II,  primeiro Papa do ano mil, se tornara protector e grande conciliador de diversas correntes Cristãs daquela época. O seu pontificado iniciado em 997, acabou em 1003. A posteridade reteve-o como grande intelectual e cientista, deixando na sombra o grande humanista que foi. Infelizmente o Papas seguintes .....
Num próximo post, falaremos como, por causa de outros Papas, 240 Cátaros marcharam para uma fogueira cantando hinos, e perdoando aos seus assassinos.

* Agustín de Rojas, Escritor cubano.
** Jinny Zamora, poetiza cubana. 
    








1 comentário:

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